A BNCC do Ensino Médio sob o olhar de Luís Carlos de Menezes

A BNCC do Ensino Médio sob o olhar de Luís Carlos de Menezes

por Tania Pescarini.



Segundo o professor sênior da Universidade de São Paulo, o documento traz avanços ao mudar o foco para a prática do aluno, ao mesmo tempo em que peca por algumas inconsistências. A expectativa é de que versão publicada pelo Ministério da Educação passe por revisão.

Se por um lado a Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil estabelece um diálogo com professores e professoras pedagogas, no caso das BNCC do Ensino Fundamental I e II e do Ensino Médio esse diálogo é limitado. Além disso, a base para o Ensino Médio representa uma ruptura com o que havia sido feito para etapas anteriores da educação básica. Esse é o diagnóstico de Luís Carlos Menezes, professor sênior na Universidade de São Paulo. A versão final da BNCC do Ensino Fundamental foi publicada pelo Ministério da Educação no final do ano passado. Já para o Ensino Médio foi publicada a versão enviada ao Conselho Nacional de Educação: o documento será debatido por especialistas e deve passar por modificações.

 

Proposta de mudança de foco é positiva

Segundo Luís Carlos Menezes, um dos aspectos positivos da BNCC é a forma como são abordadas as 10 competências gerais que orientam o documento, abrangendo as perspectivas cognitiva, ética e de visão de mundo. Outro acerto é que a base se estabelece na ação do aprendiz, e não no discurso do professor. Apesar de não ser possível esperar resultados imediatos nesse sentido, já que ações em sala de aula refletem sobretudo a formação docente, a mudança é animadora. “Atualmente, os cursos de pedagogia são generalistas, quando deveriam ser profissionalizantes. Isso prejudica a alfabetização”, afirma Luís Carlos. “A boa educação básica é aquela que promove a ação dos alunos”, acredita o pesquisador. Ele tem esperanças de que o texto do governo influencie professores a promover mais vivências em sala de aula.

Um ponto forte aparece justamente na base para a Educação Infantil, uma etapa de ensino que hoje no Brasil ainda não tem forma definida. Luís Carlos acredita que a organização por campos de experiência, com especial atenção à socialização e à comunicação, estabelece um diálogo com o trabalho do professor de EI e seu dia a dia na sala de aula. Já na etapa seguinte, Ensino Fundamental I, a interlocução não é tão suave: apesar de na maioria das escolas o educador responsável pelas salas de EFI ser um pedagogo, a base vem dividida em componentes curriculares. “Falta um pensar articulado: a professora da sala é uma só”, acredita Luís Carlos. Ele afirma ainda que o mais adequado seria o documento trazer sugestões de sequências, em vez de ter foco na seriação. O problema da falta de articulação aparece novamente na BNCC para o Ensino Fundamental II, que é uma fase problemática pelo fato de os alunos partirem de salas com um único docente, em que há uma relação mais pessoal entre aluno e professor, para uma organização acadêmica em que são obrigados a lidar com diversos professores, impessoalmente.

 

BNCC do Ensino Médio: ruptura

A última versão da Base Nacional Comum Curricular para o Ensino Médio vem cumprir a lei que reforma essa etapa da educação básica (Lei no 13415/ 2017). “O que observamos na base é uma grande ruptura. O que antes era detalhado agora aparece solto e vago”, afirma Luís Carlos. Ele diz que a BNCC do Ensino Médio não dialoga com o documento anterior, formulado para o Ensino Fundamental. A impressão, segundo ele, é de um trabalho feito às pressas. Além disso, faltam na base direcionamento e especificações acerca do que constitui ensino profissionalizante e quem poderá dar aulas para esse itinerário formativo. Em outras palavras, não se especifica o que é o “notório saber”. Não é a primeira vez que se tenta implementar o ensino profissionalizante em larga escala no Brasil. Em 1971, a Lei no 5672 propôs a oferta de ensino profissionalizante para todos, sem sucesso.

Vale a pena acrescentar que as bases trazem também uma série de problemas laterais, mas que prometem gerar resistência e críticas nas universidades e escolas. Por exemplo, a BNCC do Ensino Médio não faz menção à palavra “gênero”, feminino ou masculino. No caso da base para o EF, o ensino religioso confessional promete gerar polêmica e dificuldades de gestão em ambientes já desafiadores. Nada disso é motivo para desânimo. “Devemos nos lembrar que avançamos muito na inclusão educacional. A universalização do Ensino Fundamental foi um passo muito importante para o Brasil”, ressalta Luís Carlos de Menezes. “De toda maneira, considero muito positivo questionar a centralidade do discurso na pedagogia. A escola não foi feita para informar, mas para formar”, conclui o professor da USP.

A última versão da base do Ensino Médio pode ser acessada pelo link: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wp-content/uploads/2018/04/BNCC_EnsinoMedio_embaixa_site.pdf

Facebookyoutube

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*