A Matemática no Ensino Médio – com Adilson Longen

A Matemática no Ensino Médio – com Adilson Longen

Em 2017 e 2018 está sendo celebrado no Brasil o Biênio da Matemática. O Biênio é importante pois destaca eventos como a Bienal da Matemática, que aconteceu em abril, e o II Simpósio Nacional de Formação do Professor de Matemática, programado para outubro, além, é claro, da já tradicional Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e da Olimpíada Internacional de Matemática, pela primeira vez no país. Nesta entrevista, o doutor pela Universidade Federal do Paraná Adilson Longen, que também é professor e autor de livros didáticos de longa carreira, fala sobre a Matemática no Ensino Médio, seus problemas e oportunidades, explicando ainda o que se espera do Enem após a Medida Provisória 746.

Editora do Brasil: Avaliações mostram que a Matemática no Ensino Médio não é muito popular entre os alunos. Muitos acham a disciplina difícil. Por que essa má fama por aqui? É uma questão cultural?

Adilson Longen: A Matemática do Ensino Médio parece distante das expectativas dos alunos, segundo o que ele próprios externam. É necessário rever não apenas a necessidade de determinados conteúdos como também a forma de encaminhar outros. Precisamos, por um lado, levar aos alunos uma Matemática historicamente construída, sua linguagem, seu método. Por outro lado, necessitamos ter o máximo de contextos reais possíveis para que fique evidente seu lado de utilidade, de aplicação. Aliar essas duas coisas não é algo simples, mas é o desejável.

EB: Eventos como o Biênio da Matemática e a Obmep ajudam a gerar interesse pela disciplina? Qual é a importância deles?

AL: É impensável querer que todos os alunos tenham interesse pela Matemática. Cada um constrói habilidades e competências em diferentes áreas do conhecimento. Em cada uma dessas áreas, cabe ao professor, à escola e à toda a sociedade valorizar essas tendências e aptidões de nossos jovens. Dentro da Matemática, a Obmep, a OBM e a IMO [sigla em inglês da Olimpíada Internacional de Matemática] representam essa desejada valorização. Cria-se de fato uma cultura em busca de desafios cada vez mais intrigantes. Além disso, atitudes simples em cada escola, como propor pequenos desafios sobre os conteúdos que são trabalhados, constituem formas de potencializar e atrair cada vez mais alunos para a Matemática. Sabe-se que em algumas escolas brasileiras, por iniciativa de professores e apoio de diretores, são criados pequenos clubes de Matemática, nos quais jogos e desafios são motivos para boas discussões.

EB: Quais desafios enfrenta a Matemática no Ensino Médio?

AL: Talvez o grande desafio seja tornar o ensino e a aprendizagem da Matemática mais significativos. Não entendemos isso como rechear a aula de Matemática com curiosidades e desafios, apoiando-a apenas em situações do cotidiano. Temos a necessidade de trabalhar o conteúdo conforme currículos estabelecidos. É necessário um investimento pessoal de cada professor em ousar encaminhamentos de conteúdo, levar o aluno a fazer experimentos (quando possível), envolver mais o aluno no processo. O professor também precisa ouvir o aluno, observando suas reações e incentivando-o a externar sua forma de pensar.

EB: O livro Padrões e relações traz uma Matemática contextualizada, que prepara muito bem o aluno para o Enem. Quando o assunto é Matemática, como vem evoluindo esse exame e o que o aluno precisa saber para se sair bem? Além disso, com a aprovação da medida provisória, esperam-se mudanças significativas na prova de Matemática do Enem?

AL: O Enem avalia as habilidades e competências dos alunos de várias maneiras. Notamos cada vez mais uma tendência de verificar o conhecimento com contextos práticos e contextos que envolvam outras áreas do conhecimento. É elogiável a apresentação de questões que exijam do aluno mais observação e menos cálculos aritméticos ou algébricos. A presença cada vez mais forte da análise de fenômenos com base em uma lei de formação ou mesmo no comportamento gráfico representa um avanço e uma mudança na forma de o aluno observar a Matemática.

Quanto às mudanças que estão para ser anunciadas na BNCC para o Ensino Médio (ainda em fase de discussão), já podemos observar uma tendência de valorização de habilidades relacionadas à utilização prática de conteúdos de Matemática. Um exemplo disso é o que chamamos em Matemática do estudo de fenômenos que podem ser modelados por meio de determinadas funções, como aquelas que são periódicas (função seno e função cosseno). Mudanças de enfoques de conteúdo ou mesmo exclusão de conteúdo do Ensino Médio são esperadas, de acordo com as áreas de conhecimento de escolha (parte não obrigatória) que o aluno fará. Com isso, evidentemente, teremos uma alteração no próprio Enem.

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