Educação: tentando transpor barreiras de classe

Educação: tentando transpor barreiras de classe



O Brasil tem uma história singular e é uma sociedade marcada por diferenças de classe e pouca mobilidade social. Nossas escolas tendem a refletir e reafirmar essa realidade. Mas simplificações servem mais para distorcer do que para explicar a complexidade brasileira. Projetos de escolas de elite mostram tentativas de transpor algumas barreiras.

Na história brasileira, não faltam exemplos mostrando que não há barreiras intransponíveis. A família Rebouças é só um exemplo mais óbvio: o pai, Antônio Pereira Rebouças, filho de uma escrava e um alfaiate português, alfabetizou-se sozinho e tornou-se advogado autodidata. Três de seus filhos tornaram-se engenheiros. Um deles, André Rebouças, ficou famoso ao solucionar o problema do abastecimento de água no Rio de Janeiro, na época de D. Pedro II. Os Rebouças estão longe de ser um caso isolado: na verdade, durante o Segundo Império havia uma classe média negra emergente. No entanto, existiam também milhares de escravos. Segundo censo encomendado em 1872 – o primeiro do gênero –, cerca de 15% da população brasileira era escrava.

O mérito e esforço de André Rebouças e familiares em transpor barreiras de classe e raça conviveu com uma política de estado (a escravidão) que mantinha milhares de negros como ele à margem da sociedade. André Rebouças foi um abolicionista convicto. Apesar de seu exemplo, por muitas décadas após sua morte, em 1880, e depois da Lei Áurea (1889), o Brasil permaneceu marcado por desigualdades. Crianças negras e indígenas em áreas rurais só foram incluídas na escola de fato após a Constituição de 1988. Resumindo um pouco: a realidade brasileira é complexa e a política identitária, difícil de transpor do hemisfério Norte para cá. Em termos gerais, a mobilidade social é baixa para todos os grupos minoritários que enfrentam dificuldades em ascender socialmente, como grupo, ainda que hajam diversos exemplos de sucesso individual.

 

Desigualdade afeta educação

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – publicou no final de 2016 dados sobre mobilidade social no Brasil. Como era de se esperar, é muito difícil para uma pessoa filha de analfabetos aqui ganhar mais de 5 salários mínimos: apenas 3% conseguem. O contrário também é verdade: apenas 4% dos filhos de quem tem ensino superior completo ganha menos de um salário mínimo. Um dos objetivos da educação é justamente ajudar a construir uma sociedade mais equitativa. E o que não falta no Brasil são exemplos de desigualdade educacional. Por exemplo, vamos relativamente bem nas Olimpíadas Internacionais de Matemática. Na IMO 2016, ficamos com a 15a posição, entre mais de 100 países. No entanto, tanto em avaliações internacionais aplicadas em larga escala como no Pisa e no Saeb, nossos alunos não se saem nada bem na matéria: ficamos entre os 10 piores em Matemática na última edição do Pisa. Essa prova internacional, aliás, indica que há disparidades regionais significativas no aprendizado. Enquanto a média dos alunos do Distrito Federal se aproxima do resultado chileno, 439 pontos, em Alagoas a média não passa de 354 pontos. Apesar de rankings serem um instrumento controverso para avaliar a educação, a disparidade dos resultados dentro do Brasil, junto a dados complementares, mostram que há sim um problema de desigualdade.

 

Iniciativas de escola de elite: retribuição social

Em uma sociedade na qual realidades díspares convivem, como a escola educa para a cidadania? Em escolas de elite, quando os alunos vivem em um mundo povoado por muros, carros blindados e seguranças, como mostrar a ela a face humana do que vive do lado de lá? Essa preocupação existe e diversas iniciativas de escolas de elite em São Paulo provam isso. Escolas como Friburgo, Porto Seguro e Alef têm projetos sociais que investem na educação de crianças e jovens nascidos em famílias de baixa renda. Tanto o Alef como o Porto Seguro abriram unidades exclusivamente com esse objetivo, ambas na comunidade de Paraisópolis. Essa é uma comunidade que atrai bastante atenção da mídia e de organizações não governamentais, porque fica encravada em meio a empreendimentos imobiliários de luxo e próxima às mansões de multimilionários no Morumbi e ao Palácio do Governo do Estado de São Paulo. A proposta da escola Antonietta e Leon Feffer, Alef Unidade Paraisópolis, é oferecer a jovens de Paraisópolis uma educação com a mesma qualidade e mesmo corpo docente da Alef. A Escola da Comunidade, do Porto Seguro, também se propõe a oferecer educação de alta qualidade a crianças e jovens da Paraisópolis. Em ambos os casos, as crianças utilizam espaços separados.

Uma proposta diferente é a da escola Friburgo. O colégio tem um programa de Educação de Jovens e Adultos que oferece alfabetização em 3 módulos. O objetivo é que os alunos concluam o curso sabendo fazer as 4 operações matemáticas, lendo e escrevendo textos mais complexos. As aulas acontecem na própria escola, no período noturno, e os alunos são pessoas que trabalham na região. A escola possui, além disso, outro projeto que oferece Ensino Médio para 145 alunos vindos de escolas públicas. Todos têm menos de 18 anos. No Friburgo, alunos do Ensino Médio regular podem se envolver com os projetos sociais, como professores.

Todos esses projetos são retribuições sociais importantes. No entanto, um esforço maior para reduzir as desigualdades educacionais no Brasil teria de partir do governo e de setores maiores da sociedade.

por Tânia Pescarini.

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