Entrevista com Claudemir Belintane

Entrevista com Claudemir Belintane

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Cleudemir Belintane, professor e pesquisador na Universidade de São Paulo, trabalha a importância da oralidade no processo de alfabetização. Seu mais recente projeto, financiado pela Capes e desenvolvido com professores da Escola de Aplicação da USP e universidades federais, foi um imenso sucesso. A seguir, conheça algumas ideias do pesquisador a respeito da tradição da literatura oral, que vai das civilizações antigas do Mediterrâneo até as literaturas indígenas e africanas, e de como o professor pode usar a oralidade para apresentar textos como esses aos alunos da educação básica.

EB: Comente um pouco a oralidade nos clássicos da Literatura, como a Odisseia.

CB: Os grandes épicos do Mundo Antigo, como a Epopeia, de Gilgamesh, Ilíada, Odisseia e outros, são de origem oral. Os povos antigos eram ágrafos, não possuíam uma escrita generalizada, capaz de grafar um canto ou uma narrativa. Então todo o processo de composição era oral e performático, ou seja, vinha de uma herança oral, conservada por meio de uma estética (métrica, ritmo e elementos da narrativa), e sempre atualizada pela performance, pelo acontecimento. A composição do texto oral tem a mesma essência que a técnica usada por nossos repentistas, que (re)criam o texto a partir de uma matriz, um gênero. Exemplos: a quadra, o quadrão, as sextilhas, o martelo, o galope etc. O compositor oral lança mão de uma narrativa e a anima por meio dos versos, da declamação ou do canto. O processo autoral se revela em plena execução do texto, usando para isso gêneros e narrativas que trazem de memória. Não é por acaso que a mãe das musas é a titânide Mnemosine, que é a divindade da memória. (Mnemosine não é deusa, é uma titânide, que é diferente de deusa; é uma potência mais arcaica, mais antiga.)

EB: Como o professor pode usar a oralidade para apresentar os textos clássicos aos alunos da educação básica?

CB: Se os professores cultivam a tradição oral – por exemplo, essa nossa tradição nordestina ou mesmo o cururu praticado no interior de São Paulo – não terão dificuldade para, por meio delas, evocar o processo de composição das grandes epopeias antigas. Para isso, ele não precisa se contentar em levar em conta apenas o produto, mas insistir em mostrar toda a mnemotécnica do oral, os estilos dos cantadores, seus principais gêneros e modalidades. Por exemplo, a quadra, que é o gênero em verso mais fácil de fazer, é a base de todas as demais modalidades. A partir dela, se faz a “quadra e meia” (sextilhas) ou então o quadrão (estrofes de oito versos), que é, na verdade, duas quadras. É interessante saber que os cantadores trazem para os seus improvisos esquemas fixos, repertório de rimas, de versos já prontos, respostas bem-humoradas. Tudo isso faz parte de seu repertório para que o improviso se dê, tudo isso é guardado na memória graças ao ritmo, à métrica, à rima. O cantor das grandes epopeias, antes de Homero, cantava também estrofes semiprontas e traziam soluções estéticas na memória para animar a apresentação. Então, era uma forma de ir na origem das epopeias e ensinar a declamar, a animar o verso com a performance. A partir daí, se pode, por exemplo, tentar exercer a técnica do improviso substituindo versos, modificando-os, recriando-os em outros contextos. Esse é o modo mais interessante, tentar mostrar mais o processo do que o produto. Um outro campo interessante é que todos esses cantos são agônicos, tem a ver com a guerra, a luta (agon, em grego). Trazem, portanto, personagens guerreiros, que hoje também estão presentes no mundo digital, nos animes, quadrinhos, jogos virtuais, video games, embora como caricaturas ou apenas imagens ligeiramente inspiradas nos grandes clássicos do mundo antigo. Por exemplo, entre na internet e digite “Gilgamesh”. Você vai descobrir que existem vários desenhos contemporâneos para esse antigo personagem (o mais antigo herói do mundo tem mais de 6 mil anos). Existe Gilgamesh até em mangá. Então, este é um filão interessante a ser explorado: o imaginário das mídias atuais é inspirado nos antigos heróis das epopeias.

EB: Muitas obras clássicas têm raízes em versos cantados. Fale um pouco sobre a relação da estética da língua com a música e como essa experiência estética pode ser apresentada aos alunos do ensino básico.

CB: Canto e poesia nasceram juntos. Atualmente, a canção popular – sobretudo quando se pegam os grandes compositores brasileiros (Sinhô, Noel, Cartola, e outros mais atuais, como Chico, Caetano e Gil) – é uma espécie de retomada da poesia performática mais antiga. A língua tem a sua melopeia, a sua musicalidade, mesmo quando não temos muita consciência disso. Por exemplo, uma pessoa, para expressar a intensidade de uma ação, modula a altura da voz, alonga vogais, repete consoantes, enfim, sem o saber, provoca efeitos paronomásticos ou mesmo onomatopaicos, ou seja, tenta usar a língua de forma motivada, ampliando seu modo de expressar sentidos. A língua tem um forte parentesco com a música (veja-se, por exemplo, o belo trabalho do Grupo Rumo). Portanto, inevitavelmente, a língua se põe na poesia e na música. Essa estética do oral tem que ser apresentada como performance desde o Ensino Infantil. Criança que brinca com palavras, que explora a camada significante da língua e intensifica o sentido das palavras por meio da musicalidade tende a se alfabetizar com facilidade e até mesmo a ampliar sua capacidade de narrar ou de curtir narrativas. Um bom leitor de narrativa empresta ritmo à sua leitura, encontra a voz do narrador e de todos os personagens, reconhecendo aí a musicalidade das falas em suas mais diferentes versões emotivas.

EB: Para complementar, você pode dizer algumas palavras sobre a oralidade nas lendas indígenas e histórias africanas?

CB: Lendas indígenas e africanas, em geral, trazem para o campo das narrativas os temas fundadores que procuram tornar mais palpáveis as origens misteriosas das coisas do mundo (origem da noite, da Lua, do Sol, do fogo, dos rios, dos grandes animais etc.). Há também histórias, próximas às fábulas, de animais espertos, animais pequenos que vencem os grandes, que superam os fortes e devoradores, o que não deixa de ser gratificante para uma criança. Na tradição brasileira, por exemplo, o jabuti, que é um flautista, é considerado um animal astucioso, que vence o jacaré, a onça e até mesmo o macaco. Sua flauta é feita da canela de uma onça que foi vítima de uma de suas astúcias. Algumas histórias africanas tomam muitas vezes também o rumo da fábula: não raro um jovem ambicioso se dá mal por tentar enganar os mais velhos. Há também aquelas em que as forças da natureza aparecem personificadas, como o Sol, o rio, a leopardo, a aranha.

Se os gregos têm o mito do roubo do fogo na figura de Prometeu, os índios tembés também trazem em suas histórias esse episódio. O guardião do fogo era o Urubu-rei e o ladrão, um velho pajé. Entre os xavantes, o guardião é o avô-onça, e o ladrão, o ai’repudo, um moleque arteiro. Em vários países africanos, a aranha, em geral um personagem masculino, também tem seus momentos de glória contra os grandes, outras vezes figura como grande contador de histórias, como o famoso Ananse, aranha que se torna contador de história após vencer o leopardo e outros animais e, em suas histórias, traz a origem do próprio ato de narrar.

Essas histórias, por lidarem de forma mais direta com as origens, por apresentarem um certo frescor de um tempo bem antigo, trazem estranhamentos interessantes para as crianças. Por exemplo, quando, do corpo de Mani, a menina albina, nasce um pé de aipim, as crianças retomam muito de nossa ancestralidade, vivem um momento de espanto nessa transição entre gente e natureza.

A professora pode aproveitar muito bem essas histórias. Mesmo que as ache ingênuas, vai acabar percebendo que, para a criança, elas são encantadoras.

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