Novo olhar sobre a educação

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A neurociência tem muito a contribuir para compreendermos melhor o impacto da cegueira, do estrabismo e da baixa visão no aprendizado de crianças e adolescentes. Entender como o cérebro se desenvolve em circunstâncias incomuns ajuda educadores a traçar planos eficientes para cada caso específico.

Pensar estratégias eficazes para incluir crianças e adolescentes com deficiência visual na escola vai muito além de encomendar material em Braille. A neurociência já oferece muitas respostas sobre como o cérebro se modifica no processo de aprendizagem. O cérebro de bebês e crianças pequenas – com menos de 10 anos – passa por processos importantes de desenvolvimento. Esses processos oferecem oportunidades de intervenção pedagógica que não podem ser recuperadas mais tarde. Portanto, perder janelas de intervenção de agir na hora certa pode custar caro e isso vale para todas as crianças, não somente para as que têm deficiência visual. “Passando o período de desenvolvimento, o cérebro não muda mais”, afirma o neurocientista da Universidade de São Paulo, Marcelo Fernandes da Costa. Ele é médico e pesquisador com ampla publicação na área de reabilitação de pessoas com deficiência visual. “Até os 4 ou 6 anos, o aluno deve ter desenvolvido um bom senso de numerabilidade (quantidade, intervalo, distância, direção, maior, menor). Se isso não acontecer, a criança não aprende matemática. Ela não vai ter onde apoiar o símbolo”, ele exemplifica.

Crescendo sem enxergar

Marcelo Fernandes conta que, hoje, a neurociência entende que há particularidades ao desenvolvimento de crianças com deficiência visual. Pense em um bebê: muito do estímulo que recebe é visual. Para ele, reconhecer o rosto da mãe e de familiares é fundamental para sua sobrevivência. Se o bebê não enxerga, seu desenvolvimento será diferente. A visão nos ajuda a ler e a pensar matematicamente. “A deficiência visual pode levar a um aprendizado mais lento”, afirma Marcelo. “Para a criança cega, é preciso usar muitos recursos auditivos, táteis, desde cedo”, diz o pesquisador. Ele oferece conselhos; “A audição ajuda a criança a desenvolver o senso de lateralidade. A música pode ajudar muito. Música é contagem, ritmo, sim ou não, soma e divisão e, portanto, ajuda a criança a estabelecer relações. A música é um instrumento muito importante e pode ser usada a partir dos 4 anos. Nessa faixa etária, número, tempo e espaço são funções matemáticas e brincar com o ritmo ajuda a criança a desenvolver a noção de temporalidade dos eventos”.

Já para crianças com baixa visão, é importante que o professor fique atento: elas podem precisar de mais tempo para copiar o que foi escrito na lousa, por exemplo. Podem precisar de telelupas ou sentar-se sempre na primeira fileira da sala. Às veze, crianças pequenas com baixa visão sentem-se inseguras ao se movimentar: vale a pena orientá-las com a ajuda de objetos maiores. De uma maneira geral, segundo Marcelo, os professores podem se comunicar melhor com médicos e terapeutas sobre as especificidades de cada criança. Na escola, de maneira geral, uma boa sinalização e o uso de cores contrastantes são medidas simples que melhoram a vida de alunos cegos ou com baixa visão.

Modelo de inclusão brasileiro: obstáculos institucionais

No Brasil, algumas instituições já oferecem cursos de pós-graduação ou especialização em educação especial para deficientes visuais. No entanto, ainda falta formação para professores nessa área da educação inclusiva. “O modelo de inclusão nas escolas brasileiras é pensado para lidar com a questão socioeconômica, não está preparado para lidar com casos específicos”, afirma Marcelo Fernandes da Costa. A neurociência tem muito a dizer sobre a relação entre educação e desenvolvimento do cérebro. Cientistas já sabem que a saúde social é extremamente importante para que o cérebro se desenvolva. “O cérebro aprende por estresse: precisamos estressá-lo para que aprenda”, lembra Marcelo. Se a criança vive em um ambiente onde o estresse se esgota antes de ela chegar à escola – porque a família briga, o bairro é violento, a comida é ruim, etc., não sobra energia para que aprenda. Por outro lado, o estresse saudável ajuda: pesquisas mostram que fazer aulas de Educação Física ajuda a aprender.

Texto: Tânia pescarine

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