Que avaliação queremos para a Educação Infantil?

Que avaliação queremos para a Educação Infantil?



Movimento global exige um controle mais rígido e em larga escala da qualidade da Educação Infantil e do desenvolvimento das crianças. Professores e academia, porém, entendem que a avaliação é mito e muito mais complexa que um sistema de medidas.

Avaliações unificadas para crianças de 3, 4 e 5 anos de idade estão se espalhando mundo afora e, em breve, desembarcam em solo brasileiro. O objetivo desses testes, como define a pesquisadora Sandra Zákia, da Universidade de São Paulo, é construir um sistema de medidas para o desenvolvimento infantil que permita conhecer níveis e características das crianças e dos diversos subgrupos sociais. Não se trata, portanto, de uma autoavaliação que leve em conta gestão, formação dos professores e infraestrutura das escolas nos moldes da ANEI – Avaliação Nacional da Educação Infantil. Professoras de diversas redes municipais, bem como de escolas privadas, já se preocupam com alguns modelos de fichas de avaliação objetiva. Elas argumentam que é complicado avaliar bebês e crianças com menos de 3 anos, pois seu desenvolvimento nem sempre segue um cronograma padronizado. Mais problemático ainda é pensar sobre a função que exerceriam as avaliações cognitivas em larga escala de crianças menores de 6 anos na educação brasileira. Há estudos que indicam que as avaliações unificadas aplicadas no Ensino Fundamental e Médio não são suficientemente aproveitadas pelos professores para aprimorar a prática em sala de aula. Por que seria diferente na Educação Infantil?

Segundo Zákia, é importante que a avaliação – externa ou interna – ofereça informações úteis para a escola, assuma uma posição democrática e leve em conta o que já existe nas redes e escolas públicas. “Devemos nos perguntar: em que se apoiarão essas avaliações externas?”, afirma a pesquisadora, lembrando ainda que não podemos esquecer que o contexto atual é um de restrições orçamentárias para a educação. A também pesquisadora Maria Luiza Rodrigues Flores, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lembra que a Educação Infantil no Brasil nasce com um pé na assistência social e na saúde pública. Hoje, a matrícula na escola para crianças de 4 e 5 anos já é obrigatória e a Educação Infantil já é tratada pelo Ministério da Educação como subetapa da educação básica. “A Educação Infantil no Brasil passou por marcos importantes, como sua incorporação na Base Nacional Comum Curricular”, afirma Maria Luiza. Hoje, 90,5% das crianças entre 4 e anos estão matriculadas na pré-escola, enquanto cerca de 30% das crianças de 0 a 3 anos estão na creche. A meta para a creche é 50%, mas há desigualdades: crianças pobres e/ou nascidas no campo são a maioria das excluídas. Não há como negar, apesar de tudo, o esforço do Brasil em inserir todas as suas crianças na escola. Ainda que o desempenho dos alunos e a qualidade da educação mereça maior escrutínio.

Avaliação para quê?

“Quem trabalha com publicações e dados convive com esse fantasma (da avaliação externa)”, afirma Maria Malta Campos, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. Se as notas dos nossos alunos no Saeb crescem menos do que desejamos – principalmente no Ensino Fundamental II e Médio –, quando comparado a outros países, o Brasil se sai muito mal. Então nos perguntamos se aplicamos esses testes apenas para ferir a moral de quem trabalha com educação ou se esse tipo de mensuração oferece contribuições reais. Maria Malta, que já foi pesquisadora em Londres e na Universidade de Stanford, argumenta que os dados do Saeb foram importantes no processo recente de universalização do ensino (fundamental).

Ao mesmo tempo, da década de 1980 para cá, cresceu a pressão de instituições neoliberais sobre o ensino de diversos países, incluindo o Brasil. As avaliações externas hoje reúnem tremendo poder: afetam currículos, políticas públicas e criam uma hierarquia (quanto maior for a porcentagem de alunos nos níveis 5 e 6 do Pisa, por exemplo, melhor será o país e seu povo). Hierarquias de valor como essa podem ser instrumentalizadas para promover a exclusão de grupos já vitimados pela desigualdade: meninas, deficientes, pretos e pardos e crianças de baixa renda. Segundo Marta Lúcia da Silva, do Comitê de Monitoramento de Expansão de Vagas na Educação Infantil em São Paulo, crianças pequenas já fazem parte de um grupo historicamente discriminado. “Há uma pressão internacional por soluções baratas, em larga escala”, afirma ela, que acredita que a Educação Infantil está se tornando objeto de normatização e disputas. Nessa queda de braço, quem perde são as crianças carentes e suas famílias, aquelas tidas como incapazes ou desinteressadas em aprender. Em escolas nas quais faltam infraestrutura e boas condições de trabalho para professores, crianças estão insatisfeitas com tempo e espaço que se repetem.

Bruna Ribeiro, doutoranda em Educação pela USP, pesquisa o que as avaliações como instrumento dizem sobre como entendemos a criança e seu aprendizado. Ela analisou diversos municípios e a maneira como avaliam a Educação Infantil, bem como os testes aplicados nos três primeiros meses do primeiro ano do Ensino Fundamental. Em um desses, segundo ela relata, foi pedido que as crianças reconhecessem o sistema monetário e formulassem frases de estímulo à seleção brasileira de futebol. Obviamente, as crianças não conseguiram responder à prova. Quarenta e quatro por cento dos municípios afirmam que as crianças são avaliadas. No estado de São Paulo, o foco recai especialmente sobre as habilidades e competências, ou seja, sobre o aspecto cognitivo de seu desenvolvimento. “Precisamos nos posicionar sobre qual tipo de avaliação queremos na Educação Infantil, porque se não o fizermos, outros grupos farão”, afirma Bruna.

Texto: Tânia Pescarine

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